sexta-feira, fevereiro 20, 2009

Woodstock Revisited - Melanie Safka

Melanie Safka
“Foi mágico. Nunca na minha vida tinha actuado para tanta gente. Logo que cheguei tive a minha primeira experiência transcendental. Fiquei aterrorizada, tive que sair. Comecei a atravessar o estrado e senti que o meu espírito se separava do meu corpo. Observei-me a avançar para o palco, sentar-me e cantar algumas estrofes. E quando senti que estava a salvo, regressei.

Começou a chover mesmo antes de eu entrar em cena. Ravi Shankar tinha terminado e o apresentador do espectáculo disse que se o público acendesse os isqueiros, talvez a chuva parasse. Quando acabei de cantar toda a colina estava repleta de pequeninas luzes. Creio que foi uma das razões porque regressei ao meu corpo.

Passado um ano, sempre que cantava “Candles in the Rain”, a canção que compus sobre Woodstock, as pessoas começavam a acender isqueiros e isto pegou de tal forma que comecei a ter problemas com os bombeiros, pois estes não aprovavam os meus concertos chegando mesmo a proíbi-los. De facto, não me deixaram actuar em New Jersey durante vários anos pois diziam que eram festivais de música e, nesse estado, os festivais não estavam autorizados.

Hoje em dia, para quem não esteve em Woodstock, ouvir falar deste acontecimento deve ser como ouvir histórias do tempo da guerra. Foi uma experiência espantosa ter lá estado, ser jovem naquela época e viver no meio de um grupo de pessoas que se conheciam umas às outras como se fossem uma única família. Woodstock foi a prova de que éramos parte integrante uns dos outros, de que a vida era mais do que obedecermos aos nossos pais e de que nunca nos deveríamos ter envolvido na guerra do Vietname.”

"As minhas recordações de Woodstock não são assim muito boas. Excepto pelo facto de ter estado a trabalhar com o engenheiro/produtor Eddie Kramer na mistura do disco "Woodstock" e a coisa ter corrido muito bem. Lembro-me de ter andado por ali nos bastidores, na tenda de John Sebastian e ter-me apercebido que ali ninguém alguma vez tinha visto a nossa banda tocar. E estou a falar dos Greateful Dead, dos Band, Richie Havens, Santana. Eles tinham gostado do disco "Crosby, Stills & Nash" e disseram: "Bem, mostra-nos lá então o que sabes fazer. Vai lá."
Graham Nash
Revista Mojo Classic - The Ultimate Collectors Edition
(continua)

Janis Joplin - Summertime

quinta-feira, fevereiro 19, 2009

Woodstock Revisited - Carlos Santana

Carlos Santana
“Foi um pouco assustador ir até lá e mergulhar naquele oceano de cabelos, dentes, olhos e braços. Nunca esquecerei o som da música chocando contra aqueles corpos. Nunca se esquece aquele som.
Para a banda, no seu conjunto, foi óptimo. Mas eu procurava lutar por me manter pegado ao terreno, porque tinha tomado uns produtos psicadélicos bastante fortes antes de entrar em palco. Tínhamos chegado por volta das onze da manhã e disseram-nos que não íamos tocar antes das oito. Por isso pensei “hey, acho que vou tomar uns psicadélicos e quando aquilo começar a baixar deve estar na altura de entrar em palco e vou sentir-me bem”. Mas quando eu estava no alto, por volta das duas da tarde, alguém nos veio dizer “se não entrarem agora, já não entram”.
Andámos por ali durante toda essa noite e fui testemunha do auge do festival, que foi Sly Stone. Acho que ele nunca voltou a tocar assim tão bem – saía literalmente fumo do seu som Afro. Musicalmente, porém, Altamont foi melhor que Woodstock. Lamento que tenha ficado gente magoada, mas tenho de dizer que toda a gente tocou de um modo incrível em Altamont – os Greatfull Dead, os Jefferson Airplane, nós próprios.

Woodstock tinha mais uma vibração espiritual, foi mais uma celebração espiritual. Woodstock significava a reunião conjunta de todas as tribos. Tornou-se evidente que havia muita gente que não queria ir para o Vietname, cujos pontos de vista não coincidiam com os de Nixon nem com nada daquele sistema.
As pessoas que iniciaram o movimento hippie em Haight-Ashbury ensinaram-me a diferença entre negócios e ideais, entre artistas e fraudes. Eles não eram falsos, com aquela gente que usava perucas nos anúncios de velhos êxitos dos anos sessenta. As pessoas a sério eram maravilhosas. Podiam ver-se índios americanos e gente de pele branca apaixonados pela vida. Woodstock era parte disso. Era o mesmo movimento que tirou as pessoas do Vietname e que tirou Nixon do poder.

Houve quem lhe chamasse “área sinistrada”, mas eu não vi ninguém num estado que justificasse essa expressão. Vi muita gente reunida, partilhando tudo e passando um bom bocado. Se isso foi estar fora de controlo, então a América precisa de se descontrolar pelo menos uma vez por semana. Talvez eu seja demasiado ingénuo, mas vejo as coisas assim. Vi imensos estímulos positivos para a América, estímulos artísticos, criativos. Nos anos sessenta as pessoas não iam aos concertos para se embebedarem e engatarem umas miúdas; iam lá para serem bombardeados com música e transportados para outro lado qualquer. Quando saíamos, sabíamos que nunca mais voltaríamos a ser os mesmos. Não se ia a um concerto para evasão. Ia-se a um concerto para expansão.
Muitas das fraudes artísticas na América transformaram a música rock numa espécie de música da corporação Gap-McDonald’s. Ouve-se a mesma treta em todos os centros comerciais. É tudo uma sopa de pacote, em vez de sopa caldosa, percebem? Precisamos de mais Jimi Hendrixs e Jim Morrissons. Precisamos de mais rebeldes e renegados.

Quanto ao filme, não gosto das lentes olho-de-peixe que me tornaram parecido com um escaravelho, mas no fundo estou muito grato. Estou sempre a falar à minha mulher da bênção de possuirmos um monte de recordações e de um vídeo para as suportar. Fundamentalmente, estou muito grato pela oportunidade de ter podido tocar em Woodstock. Podia estar ainda em Tijuana, sem papéis, do outro lado da fronteira.”
(continua)

quarta-feira, fevereiro 18, 2009

Particularidades

Respondendo ao desafio do Jorge do expressodalinha aqui deixo seis das minhas características/particularidades. Depois disto, o Obama vai pedir-me para ser sua conselheira.
1 - Sou uma mulher difícil (dizem);
2 - Não gosto de me levantar de manhã cedo, a não ser que seja para ir passear;
3 - Nunca tenho pressa;
4 - Sou preguiçosa e vaidosa;
5 - Não deixo que se enfiem dentro do meu cérebro, mas sei ser flexível quando me interessa;
6 - Gosto da Primavera, do Verão, do Outono e do Inverno; vento e nevoeiro, é que não.

Não sei a quem passar este desafio, acho que já todos os que conheço responderam, mas lá vai: Georgia do Saia Justa, Serena do Serena Flor, Silvares do 100Cabeças, José Louro da Janela de Alberti, Paulo Lontro do Lontrices.

Woodstock Revisited - Country Joe McDonald

Country Joe McDonald
"Desci de um avião com Peggy, o namorado de Janis Joplin na altura. Penso que o meu grupo, os "The Fish”, já lá estava. Recordo ter ficado muito motivado para subir ao palco e ver o que se estava a passar. No caminho parecia que era um grande festival, mas não o maior, até que se viu o público. Para usar a linguagem da época, a minha cabeça saltou. Tornei-me um místico acerca da minha actuação a solo em Woodstock. Penso que estava destinado para o fazer. Eu andava sem nada para fazer, a ocupar o tempo cantando algumas canções country e folk. Então toquei “Feel-like-i’m-fixin’-to-die-rag – a saudação “F-U-C-K” – e o resto é história. Da primeira vez que responderam a “dêem-me um F”, quando finalmente pararam de falar, olharam para mim e gritaram “F”, eu soube que já não se voltaria atrás.
Quando falhou a electricidade, os miúdos ficaram chateados. Depois de se participar em espectáculos ao vivo aprende-se que as pessoas respondem a qualquer tipo de barulho. Então batemos em tudo o que tínhamos à mão, incluindo tachos e panelas. Cantámos “No More Rain” e tocámos chocalhos e a audiência agarrou isso e respondeu. Depois tivemos a ideia de lhes atirar bebidas. Atirámos latas cheias e atingimos alguns na cabeça. Eles chatearam-se e começaram a atirá-las de volta.

Eu andei pelo meio da multidão e fui à Quinta Hog, onde serviam comida. Era uma multidão muito feliz. Eu não sabia da existência de drogas duras como opiáceos e cocaína. Havia haxixe e psicadélicas, mas nenhuma das drogas que fazem as pessoas tornarem-se violentas e anti-sociais. Todo o ritual de tomar drogas era amigável e cordial. Demasiadas pessoas lêem significados políticos e sociais sérios no que estava a acontecer, muito além da sua importância. Eu penso que Woodstock, seja qual for o ângulo de análise, foi um encontro inocente.
Mas foi um acontecimento muito importante, porque havia muitas espécies de música num único festival. E isso era invulgar porque havia uma larga audiência para tantos grupos novos. Era a New Wave desse tempo. Eu percebi, no final dos anos 70 e princípio dos anos 80, que Woodstock tinha produzido alguns novos monstros da música. Os miúdos tocavam cada faixa do LP “Woodstock” da mesma forma que aprendem as músicas de um álbum de um grupo. E todos os que podiam assimilar esses diferentes estilos tinham de ser grandes músicos, uma geração de músicos melhores que os de Woodstock. O “establishment” não poderia ter produzido o festival de música de Woodstock. Eles não sabiam mexer em sistemas de som como aqueles. Eles não sabiam o que eram espectáculos de luz e som. A geração de Frank Sinatra não poderia ter realizado o festival de música de Woodstock."

"Eu não estava preparado para continuar. Eu pensei que me conseguiria escapar se dissesse que não tinha guitarra. Então eles foram não sei onde e trouxeram-me uma porcaria duma guitarra. E eu disse, bem, não tenho correia para a guitarra, não posso tocar assim. E então trouxeram um bocado de corda e ataram aquilo à guitarra. E eu disse, não tenho palheta, e eles trouxeram-me um bocado de cartão e disseram: "Toca com isso". Resmunguei qualquer coisa e lá fui eu."
Country Joe McDonald
Revista Mojo Classic - The Ultimate Collectors Edition
(continua)

MOJO Classic - The Ultimate Collectors Edition

Há um par de horas atrás, ao entrar numa Livraria Bulhosa, fui acometida por um súbito ataque de insanidade mental que me levou a cometer uma imprudência: ao dar de caras com esta revista, comecei a ler a capa, passei os olhos lá por dentro, fiquei logo ali cheia de nervos e tive que a comprar. É toda dedicada ao ano 1969 e adivinhem lá, adivinhem lá qual é um dos destaques, qual é, qual é? Pois é...nem de propósito com o espírito deste blog esta semana...É claro que vou ter uma tra-ba-lhei-ra imensa a traduzir algumas coisas, vai ser aquele sa-cri-fí-cio, mas enfim, tudo por vossa causa, claro, não vou deixar-vos pendurados, isso é que não! Quer-me cá parecer que as publicações do género estão a começar as comemorações do Woodstock e imagino que mais coisas virão por aí, a Rolling Stone e a Uncut também devem fazer umas "special edition" e eu vou estar de olhos arregalados e garras afiadas. E dinheiro na carteira, espero. Se calhar, vou passar fome. Ora que se lixe, como pão e laranjas, também é bom. Comer muito faz mal...

terça-feira, fevereiro 17, 2009

Woodstock Revisited - Richie Havens

Richie Havens
“Pensei: “Meu Deus, eles vão-me matar. Não vou enfrentar o palco sozinho! O quê? Estão malucos?” era uma sexta – feira à tarde, por volta das 15 horas e o concerto estava atrasado quase três horas. Eu deveria ser o quinto na ordem do programa; os outros artistas tinham ficado no hotel a cerca de 11 quilómetros dali. Pensei: “Eles vão atirar-me com latas de cerveja e tudo porque o espectáculo já ultrapassou a hora marcada”. Então, fiz um pouco de conversa mole e estive praticamente três horas sentado até que finalmente alguns dos outros resolveram aparecer.
O meu baixista, Eric Oxendine, tinha sido apanhado pelo trânsito na New York State Thruway. Ele tinha abandonado o carro a cerca de 49 quilómetros e vindo todo esse caminho a pé. Quando chegou, já tínhamos actuado. No momento em que saímos, deixando para trás o festival, não havia na estrada nenhum outro automóvel além do nosso. Havia por volta de 121 quilómetros de carros estacionados em fila. Foi a coisa mais surrealista que jamais vi na minha vida.

A minha recordação mais precisa foi o ter-me apercebido de que o que eu estava a presenciar naquele momento era algo que nunca imaginara: uma assembleia em sintonia. E, acreditem-me, ninguém gostaria de estar num lugar daqueles a abarrotar de gente se não se tratasse de um grande número de pessoas na mesma onda. Foi a expressão primeira da primeira geração unida pelo mesmo objectivo nascida neste planeta. O Live Aid foi um filho de Woodstock, uma criança de Woodstock, a que eu chamei Globalstock.
A história de estarmos todos uns com os outros, numa boa, é interessante. No início, não se tratava apenas da música, mas de algo como “vamos todos para o parque comer guloseimas e estar uns com os outros”. Daí, partiu-se para o Festival Pop de Monterey – um concerto gratuito realizado em 1967 – depois veio a ideia de “tentemos fazer uma coisa destas, mas também ganhar algum dinheiro”. No entanto, isso nunca aconteceu. Woodstock tornou-se no mais universal e no maior momento de confraternização casual a que eu chamo o “Acidente Cósmico”. Totalmente inesperado.

Os organizadores pensaram que se fosse como o Monterey Pop – que reuniu 50 a 60 mil pessoas – eles se encheriam de dinheiro. Contudo, estiveram na primeira tarde do festival cerca de 400 mil pessoas. Se alguém conseguiu um bom lucro foi a Warner Bros., com os direitos de filmagem. O mérito de Woodstock ser amor, paz e harmonia acabou por assentar nos pilares do “vamos ganhar dinheiro”. No princípio foi assim. O conhecimento das coisas veio depois.
O filme registou isso e nem sequer ligou muito à música. Viam-se alguns dos artistas a tocar uma ou outra música, mas nem metade dos que actuaram. Não foi, por isso, uma descrição do que se passou no palco, mas apercebemo-nos do que membros da geração mais velha, como chefes de Polícia que diziam: “Deixem os miúdos em paz, eles são bestiais e não estão a maçar ninguém”. Para as pessoas que estiveram lá, a música não foi o mais importante.

Woodstock não foi só sexo, drogas e rock‘n’roll. Graças a Deus pela música, porque quem a pôde ouvir, apercebeu-se do espírito que uniu toda aquela assembleia, o espírito das pessoas serem apenas pessoas.”
(continua)

Rock/Pop Timeline

A 17 de Fevereiro de...


1969 - Johnny Cash e Bob Dylan começaram a gravar juntos em Nashville, Tennessee. Apenas uma canção vê a luz do dia, "Girl From The North Country", que foi incluída do álbum "Nashville Skyline" de Bob Dylan.
1979 - Durante a tourné americana "Pearl Harbor '79" dos Clash, estes abrem o concerto no Palladium de Nova Iorque com a canção "I'm so Bored With The U.S.A." Nos bastidores do concerto, juntaram-se celebridades como Paul Simon, Carrie Fisher, Bruce Springsteen, Andy Wahrol, Debbie Harry, Nico e John Cale. O single de lançamento dos Dire Straits "Sultans of Swing" entra nas tabelas de vendas dos Estados Unidos, tendo atingido o 4º lugar.
1989 - Michael Jackson despede Frank Dileo, o seu manager durante os últimos cinco anos. "Eu já cá andava antes do Michael" - diz Dileo - "e hei-de continuar muito depois dele."
1999 - Eric Clapton faz saber que espera conseguir 750.000 dólares no leilão de 100, das suas 150 guitarras. O dinheiro reverterá para o centro de reabilitação de drogas e alcóol, Crossroads Center, localizado em Antigua e fundado pelo próprio Eric Clapton.

segunda-feira, fevereiro 16, 2009

Woodstock Revisited

Durante três dias cerca de 400 mil pessoas assistiram a um festival rock que ficou para a história como o momento mais alto da geração que percorreu os anos 60. Em Woodstock viveu-se uma experiência única, cuja dimensão nem sequer foi compreendida na altura. Woodstock decorreu perto de Nova York nos dias 15, 16 e 17 de Agosto de 1969.

É claro que na altura eu era uma criança, andava na escola primária, sabia lá o que era o Woodstock, passou-me completamente ao lado. Só mais tarde quando comecei a ouvir música a sério é que fui tomando conhecimento de certas coisas. Lá em casa ouvia-se música, mas a dos gadelhudos nem por isso. Até que, um dia, em Agosto de 1989, veio parar-me às mãos uma revista, da qual não me lembro o nome, mas que trazia um artigo grande de 11 páginas sobre o Festival de Woodstock - que nesse mês comemorava 20 anos - num exclusivo Rolling Stone/Face. Arranquei aquelas 11 páginas e guardei-as comigo este tempo todo, sabe-se lá porquê. Parecia que adivinhava que ia ter um blog, vinte anos depois. Não vou aqui filosofar nem dissertar sobre o festival em si, para isso há óptimos sites na net, até porque já muito foi dito, publicado e especulado sobre este assunto. Nestas onze páginas o que se pode ler são os relatos vividos na primeira pessoa por protagonistas directos, tanto do público, como alguns músicos intervenientes, tais como Carlos Santana, Richie Havens, Arlo Guthrie, Melanie Safka e Country Joe McDonald e até um dos editores-sénior da revista Rolling Stone, David Fricke que, na época, era um adolescente de 17 anos e que fazia parte da assistência. Os textos que se seguirão ao longo de alguns dias, serão reproduzidos integralmente. Eu até podia esperar pelo próximo mês de Agosto, altura em que se comemora o 40º aniversário, mas achei melhor não. Como diz o velho ditado: “Guarda que comer, não guardes que fazer”. Venham as histórias.

David Fricke
"Sempre que alguém pergunta qual a minha melhor recordação de Woodstock, nunca me lembro dos solos assanhados de Hendrix nem do sonoro “F-U-C-K” de Country Joe, dos banhos nus ou das viagens de ácido. O que primeiro recordo é sempre esparguete e cachorros quentes.
Foi isso que tive para o pequeno-almoço de sábado de manhã, o segundo dia do festival. E essa era toda a comida que eu e o meu grupo de amigos-desejosos-de-ser-hippies – seis ao todo, incluindo eu, acabados de chegar aos 17 anos – tinha para o fim-de-semana. A melancia que tínhamos trazido de Filadélfia já era história, vítima da espontânea generosidade de sexta-feira à tarde quando estávamos engarrafados no enorme parque de estacionamento anteriormente conhecido por estrada 17B. Foi um autêntico gesto tirado do “Livro de Etiqueta da Geração do Amor”, passar talhadas de melancia através das janelas da nossa carrinha VW a outros peregrinos do festival que tinham desistido de chegar ao local com os seus carros.
Visto agora, pode parecer um pequeno prazer sem importância. Mas, na altura, Woodstock para a maioria das pessoas que lá estiveram, ainda não era uma coisa importante na história da música pop/rock. Foi o inesperado, uma série de epifanias e acontecimentos momentâneos – nascimentos, mortes, sexo, doença, actos de simpatia humana e aproveitamento comercial – que fizeram história. A única maneira de perceber o que estava a acontecer era dos helicópteros que cruzavam os ares entre o palco e o Holiday Inn, também conhecido por Base da Tranquilidade, nos arredores de Liberty, Nova Iorque, de onde partiam os artistas. Lá de cima, podiam ver-se os momentos de impacto e interacção, centenas de milhar deles, que fizeram do festival um acontecimento gigantesco. (...)

(...) Nos 20 anos que passaram desde que Jimi Hendrix apresentou na madrugada de segunda-feira 18 de Agosto, a sua uivante versão do hino norte-americano, Woodstock foi analisado, censurado e vendido para além de todas as proporções do evento. Foi também a incarnação do último sonho da utopia dos anos 60 e o último dos fins-de-semana selvagens de uma geração ingenuamente esperançosa.
Quando desaparecer todo o folclore, a Feira de Música e Arte de Woodstock – que teve lugar a 15, 16 e 17 de Agosto, na quinta de Max Yasgur, perto de Bethel, Nova Iorque – não passará de um espectacular “acidente”, um improvável choque de acontecimentos, energias e expectativas, produzidos pela promessa de um fim de semana diferente, cheio de rock’n’roll , porque o que começou por ser um potencialmente lucrativo mega-concerto ficou rapidamente sem controlo. As notícias da rádio e dos jornais nas semanas anteriores não diziam uma palavra sobre a reunião de tribos ou a alvorada de uma nova geração. O factor de atracção era apenas a música porque Woodstock programou o maior e o mais prestigiado elenco do rock alguma vez reunido no mesmo palco desde o festival de Monterey em 1967 e porque surgiu na sequência de vários acontecimentos discográficos importantes como o álbum “Electric Ladyland” de Jimi Hendrix , a ópera “Tommy” dos Who, os primeiros LP dos Band e a primeira série de singles, que se tornaram clássicos do rock norte-americano, dos Credence Clearwater Revival.

Ausentes estavam apenas os Beatles, Rolling Stones, os recentes Led Zeppelin e Bob Dylan. O festival também registava algumas lacunas no capítulo da música negra e soul, se não se contar com algumas distintas excepções: Sly and The Family Stone, Richie Havens e Santana. Apesar do desequilíbrio do elenco, Woodstock era a grande oportunidade para saber do estado da música no fim da sua segunda e mais tumultuosa década. Afinal não foi para isso que serviu. A maioria dos artistas actuou em más condições: os Greatful Dead ficaram sem corrente eléctrica a meio da sua actuação e os Jefferson Airplane esperaram 17 horas antes de entrarem em palco na madrugada de domingo.
Para um rapaz de 17 anos farto de trabalhar num centro comercial e que não podia frequentar os locais de diversão nocturna devido às restrições relacionadas com a idade, a prestação cheia de calor latino de Santana foi reveladora e libertadora. Mesmo que não tenha acabado com a guerra no Vietname havia um poder implícito no som de quase meio milhão de pessoas pronunciando “F-U-C-K” em uníssono com Country Joe McDonald. Eu sei o que digo: a minha voz está no disco.

Mas Woodstock, promovido por dois empresários do rock, Michael Lang e Arnie Kornfeld, o licenciado pela Universidade de Yale, Joel Rosenman e o herdeiro de um fabricante de cosméticos, John Roberts, provou ser o início da contra-cultura. Os blues martelados e o boogie anfetaminado dos Mountain e Ten Years After – bandas que chegaram desconhecidas a Woodstock e saíram com o manto dos astros sobre os ombros – foram a antecipação daquilo em que se iria transformar a arena do rock durante a década de 70. (…)
(…) Vinte e quatro horas após o encerramento do festival, nasceu a sua mitologia. Na noite de segunda-feira, os Jefferson Airplane, David Crosby e Joni Mitchell – que não esteve no festival mas posteriormente escreveu o seu hino – estiveram em directo no programa televisivo de Dick Cavett para dar a sua eufórica opinião sobre os acontecimentos do fim-de-semana, completada pela apresentação em directo e sem censura da canção “We Can Be Together”, dos Jefferson Airplane – que cantavam “Up Against The Wall Motherfucker” quando já era apresentado o genérico. O filme e o triplo álbum logo a seguir editados, aceleraram o processo.
A vaga de festivais nos dois anos seguintes amargou irremediavelmente a memória e a fantasia. A tragédia durante a actuação dos Rolling Stones no mal organizado festival de Altamont – quando um negro que tentou subir para o palco foi assassinado pela segurança, constituída por Hell’s Angels pagos em grades de cerveja – aconteceu menos de quatro meses depois de Woodstock e foi rapidamente entendida como o fim oficial dos anos 60, arrasando a esperança no futuro anunciada durante os três dias de paz e amor.

O próprio Woodstock demonstrou como a natureza humana pode ser desagradável. A multidão deixou atrás de si, lixo e sacos-cama suficientes para cobrir uma cidade com o dobro da área do festival. O ex-comando Yippie, – Youth International Party – Abbie Hoffman demonstrou uma incrível ausência de tacto e falta de respeito pelos seus pares ao saltar para o palco durante a actuação dos Who gritando: “Eu penso que isto é um monte de merda enquanto John Sinclair apodrece na prisão”, sem ninguém perceber se ele estava contra o festival ou contra a banda ou contra “Tommy” – que o grupo tocava na altura. Ao menos Pete Tonwsend manifestou-se com veemência contra o militante radical e a invasão de palco, batendo-lhe furiosamente com a guitarra. (…)
(…) As diferentes emoções demonstradas a propósito do aniversário de Woodstock estão directamente relacionadas com os resultados do próprio festival. Ele foi, na mesma medida, um êxito e um falhanço, como qualquer acidente impossível de se repetir. De qualquer maneira, continuo a pensar em esparguete e cachorros quentes sempre que alguém pronuncia a palavra “Woodstock”. E nunca mais comi assim."
(continua)

domingo, fevereiro 15, 2009

O Tempo - 50 anos

Esta postagem, integrada na Tertúlia Virtual "O Tempo", é dedicada aos meus Pais que, no próximo dia 2 de Agosto, irão comemorar 50 anos de casamento. É Tempo!

A minha Mãe com 25 anos.

O meu Pai com 25 anos.
Conheceram-se, apaixonaram-se, namoraram...

...e no dia 2 de Agosto de 1959...

...na companhia de família e amigos...

...trocaram votos de amor eterno.

Janeiro de 2009.
TEMPO...!
Tempo? Mas o que é o Tempo?
Andem! Tentem explicar-me.
Ponham à prova o vosso raciocínio
com argumentação que me desarme.
Isto, porque ele tanto pode ser
um infinitamente grande
na aniquilação de um átomo,
como um infinitamente pequeno
na criação de um orbe.
O Homem, que se expande
na voraz realização de utopias,
propôs-se medi-lo para sentir-se envelhecer:
É nas primeiras cãs, é na primeira ruga
que ele sente do Tempo
a vertiginosa fuga.
Na verdade, o dia que hoje feneceu
e que desperdiçaste ociosamente,
testemunha terá sido, certamente,
da desintegração de muitos mundos...
- enquanto para outros
em ténue pulsação se converteu!
Não penses mais! Arranca, pois não cabes
já em tua "esfera". Foge!
Procura outras galáxias
aonde o amanhã, o ontem ou o hoje,
os séculos, os anos e os dias
não cheirem a convenção.
Voa, pois! Solta a âncora, desferra!
E depois de poisares - lá muito longe...
Verás como "lá em cima" a tua Terra
não passa de um de tantos pontos
perdido na Infinita Imensidão!
Poema de António de S.Tiago, meu Pai.

sábado, fevereiro 14, 2009

Hagar, O Terrível

Velha Cidade Alface - A Ama

A Ama
Tenha cuidado, menino!

Retrato do Artista Enquanto Jovem - 40ª parte

A genética deve explicar porque é que há tantos corredores de automóveis, de Fórmula 1 e de ralies que vêm dos países nórdicos. Do Norte da Europa, quero eu dizer, não vão os amigos brasileiros pensar que me estou a referir à Venezuela ou à Colômbia. Pela cor do cabelo desse pequeno aí, dá para perceber donde vem. O miúdo é "bom de roda". Aqui há uns anos participou num anúncio a uma marca de automóveis, anúncio esse bastante irritante, por sinal. Did we bring the present? Que disparate! Quem é, quem é?

sexta-feira, fevereiro 13, 2009

Bill Haley & The Comets - Rip It Up (1955)

Isto é que é dançar! Gostariam de dançar assim, eu sei! Dream on!

Velha Cidade Alface - O Estivador

O Estivador
Açúcar no cais do porto
é na estiva, é na estiva
às vezes me sinto morto
a alma morta, a carne viva

Retrato do Artista Enquanto Jovem - 39ª parte

Como cantora é uma nódoa, mas como mulher de negócios ninguém a bate. Quem trabalha com ela, acusa-a de ser uma "control freak", parece que faz a vida negra a toda a gente. Já passou por cá duas ou três vezes, não fui ver e não tenho pena. Já gravou algumas boas canções e os seus últimos vídeos estão muito bem conseguidos. Rodeia-se sempre dos melhores profissionais. Foi casada com um dos meus actores de eleição. Quem é, quem é?

quinta-feira, fevereiro 12, 2009

The Killing Joke - 6


Música No Coração

Caro Acólito Aspirante-a-Sacerdote do post lá de baixo,
Para que não te seja tão árdua essa longa e espinhosa jornada pelos misteriosos e insondáveis caminhos do Senhor, junto te envio aqui, uma foto da Maria, uma das nossas noviças aspirante-a-freira da Ordem das Irmãs Carmelitas Descalças que, espero, te ajude a carregar esse tão pesado fardo. Como podes ver pelo semblante tão reservado e circunspecto da pequena, dá para perceber que leva a sua missão muito a sério, apesar da sua tenra idade. Não se aceitam devoluções...

Velha Cidade Alface - O Pescador


O Pescador
Rede que volta vazia
Traz tristeza ao pescador
Que apesar da arrelia
Leva em frente o seu labor

quarta-feira, fevereiro 11, 2009

Retrato do Artista Enquanto Jovem - 38ª parte

Este nosso blogueiro andou a estudar para padre. Ele não quer que se saiba, pediu-me segredo, mas eu não resisto. Até porque, olhando para esse ar tão sereno, essa aura de beatitude de quem está em profunda comunhão com Deus e os anjos, só podia mesmo. Olhem as mãozinhas, postas para o céu, a segurar delicadamente o missal e com o terço pendurado! Tempo de inocência e sentimentos puros. Diz ele. Até fez questão de me mandar uma foto da sua primeira comunhão, para que não restassem dúvidas. Parece que foi um padre alucinado que inventou essa batina. Por cá dizemos "que tem capa sempre escapa". O tempo foi passando e o pequeno começou a sentir o apelo da selva. Ainda tentou fazer-lhe frente, mas o chamamento para a vida de pecado foi mais forte do que ele. Mandou com a batina e os padres às urtigas e, desde então, tem vivido feliz e contente a fazer casinhas. Imagino que também fará outras coisas. Quem é, quem é?

terça-feira, fevereiro 10, 2009

Velha Cidade Alface - O Vendedor de Gelados

O Vendedor de Gelados
“Há fruta ou chocolate!”

Retrato do Artista Enquanto Jovem - 37ª parte

Cá está mais uma das nossas blogueiras. Também tem pelo na venta e, apesar do ar despassarado, tem os pés bem assentes na terra. Gosta de tintas e pincéis. E não posso dizer mais nada. Quem é, quem é?

segunda-feira, fevereiro 09, 2009

Led Zeppelin - Rock'n'Roll (1973)


E porque não se fala noutra coisa, que o Robert Plant arrecadou 5 Grammy 5 ontem à noite e porque os Led Zeppelin fazem parte da minha cultura musical e porque o Led Zeppelin IV é um dos melhores discos de rock de todos os tempos e porque eu tinha uma paixão assolapada pelo Robert Plant quando era miúda e porque o Jimmy Page é um dos melhores guitarristas de todos os tempos e porque quem gosta de rock ouve e há-de ouvir sempre Led Zeppelin e porque se eles se juntarem outra vez e cá vierem eu vou ver de certeza absoluta nem que o bilhete custe 100 euros e porque continuam a influenciar e a inspirar algumas das melhores bandas que por aí andam e porque sim e porque sim...

Velha Cidade Alface - O Fotógrafo

O Fotógrafo à-lá-Minute
“Olhó passarinho!”

Joshua Benoliel

E porque a minha freguesia é muito exigente e faz muitas perguntas e tem muitas dúvidas e porque eu não estou aqui para absolutely me aborrecer com ninguém, aqui vai um breve esclarecimento acerca do autor destes últimos retratos da Lisboa do antigamente que tenho vindo a pôr aqui nestes últimos dias!
Joshua Benoliel (Lisboa, 13/Janeiro/1873 - Lisboa, 3/Fevereiro/1932 foi um fotógrafo e jornalista de Portugal, considerado por muitos o maior fotógrafo português do início do século XX. Judeu, era descendente de uma família hebraica que se instalara em Cabo Verde. Considerado o criador em Portugal da reportagem fotográfica. Fez a cobertura jornalística dos grandes acontecimentos da sua época, acompanhando os reis D. Carlos e D. Manuel II nas suas viagens ao estrangeiro, assim como a Revolução de 1910, as revoltas monárquicas durante a Primeira República, assim como o exército português que combateu na Flandres durante a Primeira Guerra Mundial. As suas fotografias caracterizam-se pelo intimismo e humanismo com que abordava os temas.
Trabalhou para o jornal "O Século" e para a revista do mesmo jornal, a "Ilustração Portugueza" bem como para a "Ocidente" e "Panorama", revistas da época. Publicou o "Arquivo Gráfico da Vida Portuguesa", obra em fascículos ilustrada com fotografias de 1903 a 1918.

Monstros Em Cascais

Este post é para ti, ó grande Expresso. Deves ter lá estado, não? Eu vi Miles em Lisboa no Coliseu em 1989, foi memorável. O homem tocou de costas o tempo todo para o público, nunca se virou de frente e quando ocasionalmente o fazia era para nos olhar com aqueles olhos de carneiro mal morto, como quem se está borrifando para toda a gente. Nem um "thank you" nem nada. Aquele ali do blusão cor de rosa, quem é? O Sonny Rollins?

Retrato do Artista Enquanto Jovem - 36ª parte

Não vou falar nada, não. Não há dicas absolutamente nenhumas. Seria fácil demais. É só olhar com muita atenção. Eu disse: com muita atenção. Está tudo lá. Quem é, quem é?

domingo, fevereiro 08, 2009

Velha Cidade Alface - O Trapeiro

O Trapeiro
“Quem tem trapos ou farrapos que queira vender?”

Dulce Pontes - Canção do Mar

Este post é para a Pureza que é portuguesa, vive no Rio de Janeiro e está cheia de saudades de Portugal.

sábado, fevereiro 07, 2009

Velha Cidade Alface - O Aguadeiro

O Aguadeiro
Olhai, senhores, esta Lisboa d'outras eras...
... ... ...
Das festas,
das seculares procissões,
Dos populares pregões matinais
que já não voltam mais!

"Há água fresquinha! Quem quer quem quer?"
O Aguadeiro era o homem que vendia água ou a levava aos domicílios.

Retrato do Artista Enquanto Jovem - 35ª parte

Olhando assim para aquela cara de quem não parte um prato, até parece que é verdade. Mas é sim, uma das nossas blogueiras. Tem pêlo na venta. Dizem, que eu disso não percebo nada. Tem o péssimo hábito de às vezes dizer coisas que não deve e depois arrepende-se. Mas o que gosto mesmo é do penteado. Como é que alguém conseguia fazer um penteado daqueles a uma criança de três anos é que eu gostava de saber. E como é que uma criança tão pequena conseguia ficar quieta até que aquilo ficasse pronto...e sair prá rua com aquilo na cabeça e, ainda por cima tirar um retrato para a posteridade! E olhó vestidinho com lacinhos e rendinhas! Coisa máilinda! Só mais uma dicazinha: a pequena ainda hoje usa franja. Não tão curta, claro... Quem é, quem é?